Você está confortavelmente instalado na poltrona do cinema e de
repente sente uma vontade incontrolável de beber um certo refrigerante.
Mais tarde fica sabendo que durante o filme foram exibidas, sem que você
percebesse, imagens que diziam "beba coca-cola". Em outra parte, alguém
vai a uma loja decidido a fazer algumas compras sem pagar por elas, mas
misteriosamente suas compulsões cleptomaníacas desaparecem depois de
alguns instantes rodando pela loja. O segredo desta súbita honestidade
está na música ambiente, que sussurra frases inaudíveis do tipo "roubar é
errado". Outra pessoa, cansada de sofrer repetidas rejeições do sexo
oposto decide tratar sua insegurança ouvindo fitas de auto-ajuda. Nas
fitas, por detrás das músicas esconde-se imperceptível uma voz que repete
incessantemente "você é um poderoso imã para o sexo oposto". Um mês depois
esta pessoa já é dona de um invejável currículo social. Enquanto isso,
diariamente todos são bombardeados por palavras e imagens de apelo sexual.
Não, não se trata das tradicionais mulheres seminuas que vendem de
perfumes a automóveis, mas de imagens escondidas, muito mais eficazes na
arte de separar o dinheiro de seu dono.
Todas as situações acima
têm algo em comum. Todas se baseiam na crença de que mensagens
imperceptíveis, ou abaixo do limiar de percepção, chamadas de mensagens
subliminares, têm o poder de ditar comportamentos, curar maus hábitos,
aumentar o consumo de um determinado produto ou, em resumo, manipular a
mente das pessoas. Será que isso é verdade?
Antes de investigarmos
o assunto à luz da ciência, vamos primeiramente descobrir como as
mensagens subliminares se tornaram tão imensamente populares nos dias de
hoje.
O nascimento de uma lenda
Em setembro de 1957, o especialista em marketing americano
James Vicary convocou a imprensa para anunciar o lançamento de sua
empresa, a Subliminal Projection Company, na qual era vice-presidente. Na
conferência Vicary revelou ter patenteado uma nova técnica de vendas
chamada "projeção subliminar" que consistia em utilizar um taquitoscópio
(um dispositivo capaz de projetar imagens numa tela muito rapidamente)
para exibir imagens entre os quadros de um filme durante uma fração de
segundos (para ser mais preciso, 0.00033s). Como eram projetadas numa
velocidade maior que o olho podia captar, estas imagens não eram vistas
conscientemente, mas Vicary acreditava que elas atingiam diretamente o
subconsciente. Para provar a eficiência de suas propagandas subliminares,
Vicary divulgou o resultado do experimento que teria conduzido num cinema
de New Jersey. Ao inserir as frases "Drink Coke" e "Eat Popcorn" durante a
projeção do filme (em noites alternadas) ele teria aumentado em 57,7% as
vendas de pipoca e em 18,1% as vendas de Coca-Cola às portas de saída do
cinema. A experiência foi relatada na revista Advertising Age (Vol 37,
pág. 127, 16 de setembro de 1957).
A mídia debruçou-se ansiosa
sobre a história e deu a ela tratamento sensacionalista. Um dos artigos,
do Wall Street Journal, por exemplo, começava assim:
"Esta história pode soar como se um disco voador espreitasse
por detrás das cenas, mas você pode ter certeza que todos os personagens
nesta novela são reais. O conto começa alguns meses atrás, quando vários
homens silenciosos adentraram um cinema de New Jersey e montaram um
estranho mecanismo junto ao projetor."
Matérias como estas,
carregadas de mistério e de referências a contos de ficção cientifica,
foram comuns e ajudaram a criar a aura fantástica em torno das mensagens
subliminares que permanece até
hoje.
Desde o início as mensagens subliminares estiveram na
mira dos grupos religiosos: logo após o anúncio da experiência de Vicary,
a WCTU (Women's Christian Temperance Union) enviou uma nota à imprensa
afirmando que técnicas subliminares estariam sendo usadas para aumentar as
vendas de cervejas e outras bebidas alcoólicas. Nenhuma evidência que
comprovasse a alegação foi apresentada, assim como nenhuma evidência tinha
sido apresentada para comprovar o experimento de Vicary, mas juntas as
duas alegações deram credibilidade uma à outra ("How a Publicity Blitz
Created the Myth of Subliminal Advertising" de Stuart Rogers, publicado em
1992 no Journal "Public Relations Quarterly", Volume 37).
Logo as
mensagens subliminares estavam no centro das atenções. O autor do clássico
romance "Admirável Mundo Novo", Aldous Huxley, escreveu em 1958 sobre um
futuro onde "ditadores científicos instalarão máquinas
sussurrantes e projetores subliminares em escolas e hospitais".
Mensagens subliminares passaram a ser vistas como uma invisível e
indefensável técnica de lavagem cerebral. Editoriais furiosos foram
publicados na imprensa exigindo o imediato banimento das propagandas
subliminares, enquanto um senador americano pedia a regulamentação do uso
da técnica.
Ainda em 1957, o ano em que Vicary anunciou seu
experimento, surgiram as primeiras tentativas de replicar o efeito
subliminar. A rede de televisão WTWO testou a técnica inserindo imagens
que diziam "se você viu esta mensagem escreva para a WTWO". A WTWO não
reportou nenhum aumento na correspondência. No ano seguinte o próprio
Vicary concordou em conduzir um experimento público na rede de televisão
canadense. A imagem dizendo "LIGUE AGORA" foi inserida 352 vezes durante
meia hora de programa, mas nenhum aumento nas ligações foi registrado. Os
telespectadores, que sabiam que alguma imagem estava sendo subliminarmente
exibida mas não sabiam qual, escreveram para a rede de TV dizendo que
haviam sentido uma vontade irresistível de apanhar uma cerveja ou de
trocar de canal.
Finalmente em 1962, alarmado com a dimensão que a
história recebeu, James Vicary concedeu uma entrevista à revista
Advertinsig Age em que confessou ter sido pressionado
pelos investidores a publicar resultados de experimentos que não tinha
feito realmente(Fred Danzig, "Subliminal Advertising -- Today It's
Just Historic Flashback for Researcher Vicary", Advertising Age, September
17, 1962, pp. 72-73). Disse Vicary:
"...nós
fomos forçados a divulgar a idéia (da subliminaridade) antes que
estivéssemos realmente prontos... nós não havíamos feito
nenhuma pesquisa exceto o mínimo necessário para registrar a
patente. Eu tinha pouco interesse na companhia (Subliminal Projection) e
uma pequena quantidade de dados, muito pequena para ser
significativa."
A
confissão de Vicary esfriou o assunto mas não o esvaziou. Em 1973, houve
um renascimento do interesse pelo tema com o lançamento do livro "Subliminal Seduction - Ad Media's Manipulation of a Not So
Innocent America" (Sedução Subliminar - Manipulação da Mídia
Publicitária de uma América Não Tão Inocente). O autor, Wilson Bryan Key,
acusava as agências de publicidade de usar mensagens subliminares em
jornais, revistas e na televisão para aumentar suas vendas. No livro, Key
fez várias afirmações bombásticas, dizendo, por exemplo, que "as agências
de publicidade gastam boa parte de seus recursos em pesquisas,
desenvolvimento e aplicação de estímulos subliminares", mas sem apresentar
nenhum documento, nem testemunhas, ilustradores, desenhistas, artistas
gráficos ou nenhum profissional que admitisse, nem anonimamente, haver
inserido deliberadamente mensagens subliminares em propagandas. Claro que,
segundo Key, tudo estava sendo mantido em segredo pelas grandes
corporações e pelo próprio governo.
Uma
marca pitoresca do discurso de Key que foi incorporada ao mito das
mensagens subliminares é o apelo sexual. Key afirmava que: "palavras como
fuck, ass, whore, cunt [vamos deixar você procurar o significado destas
palavras no dicionário] e morte são usadas freqüentemente como gatilhos
subliminares para motivar comportamentos consumistas". Por exemplo, no
nome da marca de cigarros "Kent", Key via uma similaridade subliminar com
a palavra "cunt" (na verdade Kent era o sobrenome do dono da companhia de
cigarros Lorillard na época do lançamento da marca). Como palavrões
poderiam influenciar os hábitos de consumo de alguém é uma coisa que Key
explicava com uma tortuosa psicologia freudiana. Além de palavras de baixo
calão, Key possuía uma habilidade incomum de ver sexo escondido em
qualquer coisa. O título de seu livro posterior "The Clam-Plate Orgy" (A Orgia no Prato de Moluscos) era
uma referência à imagem de um prato de moluscos que ilustrava o menu de um
restaurante de frutos do mar; em vez de um punhado de moluscos Key viu uma
cena de sexo grupal... que incluía um jumento! E o que dizer da afirmação
de que os orifícios dos biscoitos Ritz eram dispostos propositalmente para
formar a palavra "SEX"?

Capa do livro de Wilson Key. A legenda
diz:
"Você está se sentido excitado com esta
figura?".
Segundo o autor, você deveria ver uma mulher
nua nos cubos de gelo.
Por mais que as alegações de Key fossem desprovidas de
evidências, elas revitalizaram o mito e o tornaram muito mais
"interessante" (sobre uma coisa Key tinha razão: sexo é sempre um tema
popular). Como resultado, em 1980 nos EUA 78% da população
pesquisada dizia já ter ouvido falar das mensagens subliminares e destes,
aproximadamente 50% acreditavam que elas eram usadas comumente pela mídia.
Quanto ao "experimento pipoca" de Vicary, este continua sendo usado por
todos os que vendem o poder das mensagens subliminares, sem que ninguém se
lembre ou se importe com o fato de o próprio autor tê-lo
desmentido.
O que NÃO é subliminar?
Subliminar significa "abaixo do limiar de percepção". Simples
assim. Um som numa freqüência mais alta do que o ouvido pode escutar ou
uma imagem tão rápida que o olho não possa captar são exemplos de
estímulos subliminares.
Mas uma definição tão simples nos deixa um
problema: se um estímulo subliminar, portanto indetectável, é detectado
pelo observador (ainda que inconscientemente) ele deixa de ser
classificado como subliminar. Ou seja, qualquer efeito atribuído a um
estímulo subliminar torna-se impossível por definição.
De fato
esta foi a definição utilizada pelos primeiros estudiosos que estudaram o
tema no final do século XIX, mas as coisas não são tão simples. Os
psicólogos sabem hoje que a percepção de um estímulo (isto é, ver algo e
saber que viu) depende de fatores psicológicos e sociais tanto quanto de
fatores fisiológicos. Alguém pode ver alguma coisa e simplesmente não se
sentir confiante o suficiente de ter visto. Assim, em vez de uma linha separando o que está abaixo do limiar de
percepção do que está acima, os psicólogos falam em uma faixa de
percepção: acima do limite superior, chamado de limiar
subjetivo, as pessoas são capazes de notar claramente um estímulo;
abaixo do limite inferior, chamado de limiar
objetivo estão os estímulos que não podem ser percebidos de maneira
nenhuma; abaixo do limiar subjetivo, mas acima do limiar objetivo as
pessoas percebem os estímulos mas pensam que não perceberam. Com isso, um
estímulo subliminar passa a ser considerado um estímulo percebido, mas não reportado.
E aí começa a
confusão... A maioria dos sites sobre o assunto não só misturam todos os
tipos de mensagens subliminares (subjetivas e objetivas, visuais e
auditivas) num mesmo balaio, atribuindo a todas elas poderes fantásticos
de persuasão, como ainda acrescentam ao saco inúmeras coisas que não tem
absolutamente nada de subliminar.
Um dos
maiores sites nacionais sobre mensagens subliminares é o portal da Organização Não
Governamental de Estudos e Pesquisas em Mensagem Subliminar. Este site
é o ponto de partida para qualquer pesquisa que se faça sobre o assunto em
língua portuguesa. Ironicamente, muito pouco do que se diz no site tem
realmente a ver com mensagens subliminares, na acepção correta do
termo.
Para início de conversa esta ONG considera
qualquer imagem que esteja num segundo plano como subliminar. Claro que a
primeira regra para uma imagem ser subliminar é não ser vista, mas a ONG
parece ignorar completamente este fato. Um dos exemplos é o "inocente
cartão de Natal" da figura. Por causa das folhas de maconha estampadas no
fundo, o Professor Vicente, presidente da ONG, diz haver uma referência
subliminar à maconha. Para nós é difícil imaginar uma mensagem mais clara
do que esta.
Na verdade, os organizadores deste site julgam como
subliminar tudo o que não é percebido imediatamente, ou seja, usam a
palavra subliminar como sinônimo de subentendido. O mais grave é que devem
possuir um limite de percepção extremamente estreito para considerar como
subliminares coisas como a tirinha do Horácio (abaixo), em que as
montanhas têm a forma de uma mulher (que por sinal é a graça da piada), e
a capa da revista Istoé, que propositalmente dispôs o texto de forma
fálica numa matéria sobre o Uprima, um remédio para impotência.

Na tirinha o texto diz "não sei o que deu em você, que
só quer dormir no alto daquela montanha, Horácio". Horácio responde "Nem
eu, mas eu acordo tão bem, tão revitalizado!".
Imagine como ficaram frustrados os
idealizadores destas elaboradas "gags" ao saber que algumas pessoas as
consideram abaixo do limiar de percepção!
O PhD Flavio
Mário Calazans, autor do livro "Propaganda Subliminar Multimídia",
considera até o merchandising das novelas, aquele que um personagem bebe
uma cerveja com o rótulo "casualmente" voltado para câmera, como mensagem
subliminar (ora, se o merchandising está sendo visto não é subliminar!).
Professor Calazans classifica ainda como mensagens subliminares: o tom de
voz e os trejeitos usados pelos atores de novela, as cores da rede de
lanchonetes Mc Donald's (o vermelho estimularia a fome, segundo ele) e até
as figuras
de linguagem usadas na conversas do dia a dia. Porém nada disso é
classificado como subliminar na literatura científica, nem na área da
psicologia nem mesmo na publicidade, conforme resumem Martha Rogers e
Christine A. Seiler, PhDs em Marketing, em seu artigo "The Answer Is No: A
National Survey of Advertising Industry Practitioners and Their Clients
about Whether They Use Subliminal Advertising", publicado no Journal of
Advertising Research:
"(...) a maioria dos que dizem ter
conhecimento do uso de mensagens subliminares em propagandas, na verdade
não compartilha um conhecimento científico ou técnico do conceito de
propaganda subliminar. Eles parecem possuir uma opinião popular de que
qualquer elemento subentendido usado em propagandas (como cores, certos
tipos de indivíduos usados para representar conceitos publicitários, etc)
representam «propaganda subliminar«, quando na verdade estes
subentendimentos não estão incluídos na discussão técnica de propaganda
subliminar."
Em muitos casos Calazans faz alegações extraordinárias
sem apresentar evidências científicas que as suportem. Por exemplo, sobre
o episódio do Pokemon que causou ataques epilépticos em crianças no Japão
em 1997, Calazans afirma que:
"As cores em seqüência piscadas:
vermelho, branco e azul, nesta velocidade causam o curto-circuito
epilético, pois o vermelho (760 nanômetros) ondas longas, acelera
batimento cardíaco e eleva a pressão sangüínea, libera adrenalina; o azul
(450 nanômetros) ondas curtas, reduz a pressão sistólica, acalma e relaxa,
este dilema subliminar de mensagens com efeitos opostos gera o efeito
epilético chegando a alterar a química do sangue (...)"
Nenhuma
evidência médica é apresentada para suportar a afirmação de que cores
podem alterar a pressão sangüínea ou que cores piscadas rapidamente podem
alterar a química do sangue. Mas o experimento do cinema de James Vicary,
este é bastante citado. Calazans chega a classificá-lo como um três
acontecimentos mais importantes da mídia do século XX. Infelizmente não
informa aos seus leitores e aos assistentes de suas palestras é que o
experimento foi uma reconhecida farsa.
Se estivessem simplesmente
confundindo alhos com bugalhos, estes sites seriam inofensivos. Porém, com
o experimento forjado por Vicary na ponta da língua e seguindo à risca a
cartilha paranóica de Wilson Key, muitos creditam a estas mensagens, que
nada tem de subliminares, poderes praticamente sobrenaturais.
Um
exemplo bíblico: a ONG Mensagem Subliminar afirma que a primeira
referência às mensagens subliminares foi feita por Moisés no livro do
Gênesis. O Professor Vicente conta a história do pastor de ovelhas Jacó
que, após trabalhar vários anos de graça para seu tio, Labão, firma com
ele o seguinte acordo: todas as ovelhas dali por diante que nascessem com
peles malhadas seriam de Jacó, enquanto aquelas de pele lisa seriam do
tio. O acordo era claramente desfavorável a Jacó, já que o nascimento de
ovelhas malhadas é evento muito mais raro que de ovelhas lisas, mas,
inspirado divinamente, Jacó espalha nos locais em que as ovelhas bebiam
água, varas de álamo, aveleira e castanheiro, descascadas de maneira a
lembrarem listras e malhas. Diz o livro do Gênesis: "E concebia o rebanho
diante das varas e as ovelhas davam crias listradas, salpicadas e
malhadas" (Gen.30.39). Segundo a Bíblia, com este artifício divino, Jacó
logo se tornou um dos homens mais prósperos de sua região. Bem, e onde se
encaixam as mensagens subliminares? Segundo o professor Vicente "as
(ovelhas) prenhas, quando bebiam água nos bebedouros, registravam a imagem
das varas à sua volta, repetidas vezes durante o dia, apenas na visão
periférica, ou seja, a imagem das cercas, não era focada conscientemente.
Esses estímulos subliminares, eram remetidos diretamente ao ventre das
fêmeas, interferindo na formação genética dos embriões. O professor
Vicente prossegue dizendo que: "A medicina moderna tem confirmado fatos
semelhantes ocorridos com mulheres que no período da gestação tem uma
afinidade muito grande com certos animais de estimação, objetos ou frutas
e que, quando dão à luz, alguns sinais ou manchas associadas a estes
elementos, acabam impressos na pele da criança". Com este testemunho,
excluímos a possibilidade do professor Vicente dar aulas de
Medicina.
Até aqui já mostramos como a experiência de Vicary não
passa de uma lenda urbana e que a maior parte do que os sites populares
escrevem sobre o assunto não trata de mensagens realmente subliminares.
Mas o que dizer das mensagens subliminares genuínas? Será que estas
mensagens imperceptíveis, passando diretamente pelos filtros da nossa
mente consciente, são capazes de influenciar nosso comportamento? E
funcionando ou não, será que mensagens subliminares estão deliberadamente
sendo usadas pela mídia para controlar nosso bolso e nossa
mente?
Ok. Hora de ouvir a ciência. E também as agências de
publicidade.
O que diz a ciência
Antes de mais nada, não existe na psicologia respeitável a
noção de subconsciente como uma entidade separada do consciente, com
idéias, crenças, desejos e motivações próprios. Este subconsciente
"esperto", capaz de tomar suas próprias decisões à revelia do dono, povoa
apenas o imaginário popular, não os livros científicos. É importante
deixar isto bem claro, pois esta visão popular do subconsciente é a grande
responsável pela força do mito das mensagens subliminares. Apesar disso,
nenhum psicólogo duvida que é possível perceber um estímulo sem estar
consciente dele. O problema é descobrir em que grau isso
acontece.
Os primeiros estudos sobre percepção subliminar foram
feitos no final do século XIX. Naqueles primeiros experimentos os
pesquisadores mostravam aos voluntários fichas com letras ou figuras
geométricas a uma distância tão grande que quando perguntados sobre o que
viam todos diziam que não conseguiam distinguir nada além de borrões.
Depois pediam as pessoas que tentassem adivinhar em um questionário de
múltipla escolha as figuras que haviam sido mostradas. Como o nível de
acertos era maior do que o que seria obtido ao acaso, os pesquisadores
concluíam que as pessoas haviam sido afetadas pelas imagens
("Psychological Investigations of Unconscious Perception", Philipe
Merikle, Journal of Counciosness Studies, 5,1998). A partir do final do
final dos anos 70 os pesquisadores passaram a tentar verificar se havia
mudanças no comportamento das pessoas submetidas a estímulos subliminares.
Em um estudo famoso os pesquisadores exibiram ideogramas chineses aos
voluntários e depois pediram a eles que tentassem adivinhar num teste de
múltipla escolha se os ideogramas tinham significados positivos ou
negativos. Para algumas pessoas as imagens foram precedidas por imagens
subliminares de figuras sorridentes ou tristes de tal maneira que nenhuma
pessoa reportou tê-las visto. A conclusão é que as pessoas submetidas às
imagens subliminares tiveram maior tendência de classificar positivamente
os ideogramas precedidos de figuras positivas que aquelas que não tinham
sido submetidas a elas. Este tipo de estudo, em que o indivíduo é
preparado com a breve exposição preliminar de uma imagem antes de medir
seu desempenho, é chamado de estudo de "priming". A maior parte da base
estabelecida sobre percepção subliminar e seus efeitos foi adquirida com
estudos deste tipo ("Unconscious Processes, Subliminal Stimulation, and
Anxiety", Mayer e Merckelbach, Clinical Psychology Review, Vol. 19, No. 5,
pp. 571-590, 1999).
Mas é neste ponto que os resultados se tornam
conflitantes. Há vários estudos de "priming" que mostram, logo após a
exibição dos estímulos, melhoria nas habilidades motoras (medindo o
resultado no lançamento de dardos), mudanças de humor, redução da
ansiedade e de fobias como a agorafobia e até perda de peso. Em
contrapartida há um grande número de estudos que simplesmente não
encontraram nenhuma relação entre mudanças comportamentais e estímulos
subliminares e muitos falharam em tentar replicar os resultados positivos
daqueles estudos. Por que tanta confusão?
Bem, a psicologia não é
uma ciência exata. Seu objeto de estudo não é o previsível mundo natural,
mas a mente do homem, com todas as suas subjetividades e nuances. É muito
difícil planejar um experimento com uma metodologia que isole totalmente o
fenômeno que se está estudando. No caso da percepção subliminar o maior
problema dos pesquisadores é assegurar que um estímulo seja realmente
subliminar para todas as pessoas no experimento. Como já dissemos, não
existe uma linha demarcando o que é subliminar do que não é. Em vez disso,
há uma faixa entre o chamado limiar subjetivo e o limiar objetivo; dentro
desta faixa um estímulo é percebido, mas sem que o observador tenha
consciência dele. Acima do limite subjetivo o estímulo é percebido
conscientemente pelo observador, sendo chamado de supraliminar. Já abaixo
do limite objetivo não há nenhum traço de percepção. Descobrir os limites
objetivo e subjetivo de cada pessoa e enquadrar o estímulo nesta estreita
faixa para todas as pessoas no experimento é uma dificuldade
enorme.
Mas por sobre a confusão e a contradição pairam algumas
certezas. Mesmo os pesquisadores mais otimistas reconhecem que o efeito de
um estímulo subliminar não dura mais do que dois ou três segundos. Quer
dizer, quando o teste cognitivo não é feito imediatamente depois da
exibição das imagens subliminares, nenhum efeito é verificado. Até o
momento, só encontramos referência a um trabalho mostrando efeitos de até
24h, em pacientes anestesiados: "Memory of unconsciously perceived events:
Evidence from anesthetized patients" de Philip Merikle). Além disso
sabe-se que nem todos os tipos de mensagens subliminares são igualmente
eficazes; as visuais tem efeitos cognitivos muito maiores do que as
auditivas.
Outro consenso entre os cientistas é que percepção
subliminar não significa persuasão subliminar. Ou seja, embora a percepção
subliminar possa aumentar o número de respostas certas em questões de
múltipla escolha sobre o estímulo, ela não pode fazer que alguém beba mais
coca-cola, pare de fumar ou mude de orientação sexual. Não há nenhuma
evidência de que as ações de alguém podem ser comandadas por estímulos
percebidos inconscientemente (como bem sabem os paranóicos de plantão, as
únicas alegações deste tipo vêm de mitos urbanos como o "Experimento
Pipoca", de James Vicary). Pelo contrário, todas as evidências sugerem que para iniciar uma ação baseada em
um estímulo, uma pessoa precisa estar ciente dele.
Enquanto
psicólogos seguem desenvolvendo novas metodologias para delimitar a
extensão da percepção subliminar, os publicitários e demais profissionais
do marketing tentam descobrir se mensagens subliminares podem ser usadas
para influenciar os hábitos dos consumidores. Até o momento, apesar dos
numerosos trabalhos existentes, foram muito poucos aqueles que encontraram
algum efeito relevante; a maioria possui tantas falhas de metodologia que
não pode ser considerada conclusiva, segundo os autores Laura Branon e
Timothy C. Brock no (ótimo) artigo "The Subliminal Persuasion Controversy"
("A Controversia da Persuação Subliminar", disponível aqui). De fato entre 1970 e 1985 houve apenas um
trabalho mostrando uma influência posiiva de mensagens subliminares. Seu
autor, Del I. Hawkins, mostrou que dentre as pessoas submetidas a
mensagens subliminares, aquelas expostas à palavra "COKE" (Coca-Cola)
reportavam mais sede dos que pessoas expostas à uma palavra sem sentido.
Este estudo foi bastante influente durante os 15 anos seguintes e serviu
para manter acesas por um bom tempo as alegações de Vicary, desta vez
dando a elas um fundo científico. No entanto em 1989, ao reproduzir o
experimento, o mesmo autor foi incapaz de replicar seus resultados,
concluindo (num exemplo da honestidade intelectual que deve sempre permear
a ciência):
"Este estudo lança sérias dúvidas
sobre a validade dos outros poucos estudos mostrando evidência
experimental de efeitos subliminares no contexto publicitário. Ele
claramente indica a necessidade de se criar uma tradição de replicar
experimentos na área de marketing" ("Subliminal Stimulation: Some
New Data and Interpretation" ["Estimulação Subliminar: Novos Dados e
Interpretação"] de Sharon E. Beatty e Del I. Hawkins, publicado no Journal
of Advertising, Volume 18, 1989)
No estudo "Effectiveness of
Subliminal in Television Commercials" (Eficácia do Subliminar nos
Comerciais de Televisão) de Smith e Rogers (1994), os pesquisadores
incluíram em um comercial as palavras "ESCOLHA ESTE" com graus diferentes
de contraste de tal maneira que elas fossem perfeitamente claras para um
grupo e subliminares para outro e pediram aos expectadores que marcassem
num questionário seu interesse nos comerciais. Depois compararam os
resultados com os de um grupo de controle, cujos expectadores assistiram
comerciais sem nenhuma mensagem. Ao final constataram que os comerciais
com as mensagens detectáveis obtiveram mais pontos que aqueles com
mensagens subliminares. Para sua surpresa, verificaram que os comerciais
com mensagens, subliminares ou não, obtiveram menos pontos do que os do
grupo de controle, sem mensagens. Do trabalho os autores concluíram que a
mais forte mensagem subliminar ainda é mais fraca que uma mensagem direta
e que mesmo que fossem eficazes (e não fossem proibidas por lei, ao menos
nos EUA), a inserção deste tipo de mensagens na televisão envolve
dificuldades práticas que tornariam a técnica pouco
viável.
Investigando o efeito de palavras e imagens de conteúdo
sexual escondidas em anúncios na mídia os pesquisadores Vokey e Read mostraram a um grupo de pessoas fotografias
contendo a palavra "sex" escondida entre as imagens, enquanto um grupo de
controle viu as mesmas imagens mas sem nenhuma mensagem escondida. Nenhum
aumento na retenção da memória foi observado em relação ao grupo de
controle. Na verdade, segundo os autores, além de não existir nenhuma
evidência que suporte as alegações de Key, elas vão contra todo o
conhecimento atual da neurociência e ciência cognitiva.
Mas ainda
que as mensagens subliminares não sejam eficazes como técnica de
propaganda, será que as agências de publicidade estão fazendo uso
deliberado delas? Bem, a única maneira de saber é perguntando aos
publicitários. Foi o que fizeram os pesquisadores Martha Rogers and
Christine Seiler no artigo "The Answer is No: A National Survey of
Advertising Practitioners and Their Clients about Whether they use
Subliminal Advertising" ("A Resposta É Não: Uma Pesquisa Nacional das
Agências de Publicidade e Seus Clientes Sobre Se Elas Usam Ou Não
Propaganda Subliminar", um trecho do artigo pode ser lido aqui).
Rogers e Seiler pediram a 750 pequenas e grandes agências de publicidade
em todo o território americano que respondessem a um questionário no qual
perguntavam se elas já haviam usado técnicas subliminares em seus
trabalhos, onde por técnicas subliminares se entendia "palavras, imagens e
formas intencionalmente inseridas em materiais publicitários, de tal
maneira que o público não as percebam em nível consciente, mas em nível
subconsciente". As perguntas foram planejadas de maneira a estimular
respostas tão honestas quanto possível. Das 256 agências que responderam a
pesquisa, 90,6% negaram qualquer uso de técnicas subliminares; dos 9,3%
restantes que admitiram terem usado técnicas subliminares, todas menos uma
consideraram artifícios triviais (como uso de cores, certos tipos de
personalidades que provoquem identificação com o consumidor, etc) como
subliminares, ou seja, possuíam a velha noção popular de que subliminar é
sinônimo de subentendido. O único caso das 256 agências que usou alguma
técnica subliminar real, admitiu que o fez como uma piada interna.
Fitas de auto-ajuda
Você coloca a fita no toca-fitas do carro e enquanto dirige
para o trabalho relaxa ao som de suaves barulhinhos de água correndo,
chuva caindo, pássaros cantando, ondas do mar, etc. Mas por detrás destes
sons, gravada de maneira totalmente imperceptível para o ouvido humano, há
uma voz repetindo mensagens como: "eu estou me sentindo saudável e
vibrante", "eu gosto de comer vegetais frescos", "eu tenho uma barriga
firme e disposição para fazer exercícios", "eu sou um poderoso imã para o
sexo oposto" e por aí vai. Há fitas para o inimaginável: desenvolver a
acuidade visual, aumentar a habilidade em basquete, golfe ou tênis, e até
mesmo fitas que prometem auxiliar o ouvinte a regredir a vidas passadas. E
quando você pensa que já viu de tudo, descobre que há fitas auditivas para
curar... surdez!
É claro que em plena era digital, as velhas fitas
cassetes evoluíram; hoje vende-se CDs, arquivos MP3 e até mesmo softwares
do tipo "faça você mesmo" que permitem ao usuário criar fitas
personalizadas para atingir as metas que desejar. A despeito do imenso
comércio em torno das fitas de auto-ajuda (segundo a revista Newsweek em
1990 havia 2000 fabricantes de fitas movimentando um negócio de 50 milhões
de dólares), todos os trabalhos científicos que já se fez até hoje sobre
elas concluem: mensagens subliminares gravadas em fitas
de auto-ajuda não têm absolutamente nenhum efeito sobre quem as
ouve.
Por exemplo, no artigo "Subliminal Self-help Auditory
Tapes: An Empirical Test of Perceptual Consequences" (Fitas de Auto-Ajuda
Subliminares: Um Teste Empírico de Conseqüências Perceptivas, disponível
aqui, o autor Timothy E. Moore pediu a 53 pessoas, que
haviam escutado fitas de auto-ajuda contendo mensagens subliminares, que
marcassem num teste de múltipla escolha o que havia sido dito nas fitas. O
resultado foi o mesmo de alguém que chutasse todas as respostas. Ou seja,
as mensagens subliminares não atingiram nem conscientemente nem
inconscientemente as pessoas que as escutaram.
Mas há quem possa
advogar a idéia de que mesmo que as mensagens subliminares não sejam
captadas pelo cérebro ainda assim possam exercer algum efeito sobre as
habilidades motoras, sobre a autoconfiança ou sobre o peso corporal de
quem as ouve. No artigo "Subliminal Self-Help Audiotapes, A Search for
Placebo Effects" (Fitas de Auto-Ajuda Subliminares, Procurando por Efeitos
Placebo) o pesquisador Philip Merikle testou fitas de auto-ajuda para
emagrecimento. Para isso usou três grupos de 15 mulheres acima do peso;
todas acreditavam na eficiência das fitas de auto-ajuda. Um dos grupos
ouviu fitas contendo mensagens subliminares para emagrecimento, outro
grupo ouviu fitas indistinguíveis das primeiras mas que continham
mensagens subliminares para perder o medo de dentista e o terceiro grupo
não ouviu fita nenhuma. O teste foi feito usando o método de duplo-cego,
ou seja, nem o pesquisador nem as mulheres sabiam que fitas estavam
ouvindo. Ao final de cinco semanas as mulheres dos três grupos mostraram
perda equivalente de peso.
Como nota o autor da pesquisa, há
diversos trabalhos que sugerem que fitas de auto-ajuda podem funcionar
sim, por efeito placebo (afinal não se pode ignorar que as fitas possuem
legiões de clientes satisfeitos). Ou seja, é provável que você realmente
consiga perder alguns quilos escutando estas fitas se realmente acreditar
que elas são capazes disto (regredir a vidas passadas ou curar surdez, no
entanto, são outra história). Mas é bom deixar bem claro que as mensagens
subliminares nelas não terão absolutamente nenhuma influência sobre seu
emagrecimento (isso se houver alguma mensagem subliminar na fita! Pois
Merikle também analisou o espectro sonoro de diversas fitas e não encontrou nenhum traço de mensagem por detrás das
músicas. Ou os fabricantes nem se dão ao trabalho de gravar algo
que por definição não deve ser escutado pelo ouvinte ou as mensagens eram
subliminares até para os aparelhos!).
Existe uma diferença
fundamental entre as mensagens subliminares auditivas e mensagens
subliminares visuais, que por ignorância ou má-fé são completamente
ignoradas pelos vicaristas (não trocamos nenhuma letra não, são chamados
assim os que acreditam no "Experimento Pipoca" de James Vicary). Para
tornar uma imagem subliminar não é necessário alterar a imagem fisicamente
nem a maneira como ela atinge nossos sentidos, basta diminuir o seu tempo
de exposição. Já para tornar um som subliminar é preciso gravá-lo num
volume muito baixo e enterrá-lo sob camadas e camadas de outros sons.
Acontece que para ser percebido, o som, que nada mais é que uma onda de
pressão causada pelo deslocamento de ar, precisa ter energia suficiente
para fazer vibrar o tímpano - uma membrana do interior do ouvido - o que
um som subliminar por definição não tem. Afirmar que alguém pode ouvir,
mesmo inconscientemente, um som escondido em uma fita de auto-ajuda é o
equivalente sonoro de dizer que uma princesa pode sentir uma ervilha
debaixo de uma pilha de colchões (como naquela fábula de Hans Christian
Andersen).
Se você quer saber mais, uma boa revisão bibliográfica
dos experimentos feitos até 1993 sobre fitas de auto-ajuda pode ser
encontrada no artigo "Subliminal Self-help Tapes: Promises, Promises? (Fitas de
Auto-Ajuda Subliminares, Promessas, promessas?)" de Beyerstein e Eich.
As
mensagens subliminares vão a julgamento - o caso Judas
Priest
James Vance and Ray Belknap eram dois adolescentes
problemáticos, ou melhor, mais problemáticos que a média. Os dois tinham
dificuldades de adaptação, eram abusivos e violentos em seus
relacionamentos, socialmente alienados, impulsivos e por vezes
depressivos. Os dois vinham de lares desfeitos e um deles já tinha
apontado uma arma para a cabeça da mãe durante uma discussão. Os dois
possuíam histórico de uso de drogas, furtos e brigas na escola. Em 1985,
depois de beberem uma caixa de cervejas, fumarem maconha e ouvirem muito
rock'n'roll, os dois tentaram o suicídio com um tiro na cabeça, um deles
pela segunda vez. Belknap morreu na hora enquanto Vance ainda viveu por
mais três anos até morrer de uma overdose de medicamentos.
Quem
você apontaria como culpados num episódio trágico destes? Os pais
ausentes? As drogas? Bebidas? A falta de valores familiares e/ou
religiosos? Genes ruins? Pois os pais dos garotos decidiram que a culpa
era da banda de rock Judas Priest e pediram uma indenização de 6,2 milhões
de dólares. Alegaram que seus filhos foram levados a cometer suicídio por
uma mensagem subliminar escondida na música "Better By You, Better Than
Me", de 1978, que dizia "Do It" (Faça). Isso mesmo. A palavra ""faça"
sozinha e praticamente inaudível teria sido a responsável por fazer dois
jovens delinqüentes, embriagados e drogados a se matarem. Por absurdo que
possa parecer o caso foi a julgamento.
Ainda durante o
pré-julgamento, ninguém menos que Wilson Key, autor do livro "Subliminal
Persuasion", o homem que sozinho reinventou o mito das mensagens
subliminares, foi chamado para depor como expert no assunto. Diz muito
sobre a credibilidade de Key, famoso por enxergar imagens sexuais em
biscoitos, pratos de frutos do mar e copos com gelo, o fato dele ter sido
dispensado logo depois do pré-julgamento. Outro pseudocientista, Jonh
Oates, criador dos "Discursos Reversos", tentou ganhar alguma projeção com
o caso oferecendo seus préstimos aos advogados. Ao ouvir a música do grupo
ao contrário Oates encontrou outras 72 expressões de conteúdo maligno
(temos que tirar o chapéu para a criatividade deste homem). Também foi
recusado. Os promotores precisavam de alguém respeitável e chamaram Howard
Shevrin, pesquisador de credenciais impecáveis e mais de 20 anos de
pesquisas no tema. Shevrin expôs sua convicção de que estímulos
subliminares são especialmente poderosos porque passam despercebidos pela
porta de entrada da mente consciente fazendo com que a pessoa pense que
são originários de sua própria vontade. Segundo o pesquisador Timothy E.
Moore, que esteve presente ao julgamento, os argumentos de Shevrin foram
muito convincentes e causaram grande impressão no juiz.
Do lado da
defesa estavam o já citado Timothy E. Moore, Anthony Pratkanis, professor
de psicologia social da Universidade da Califórnia, e Don Read, psicólogo
cognitivo da Universidade de Lethbridge. Os três se concentraram em
apontar as incoerências e falhas de metodologia dos numerosos trabalhos
sobre percepção subliminar, vários deles usados por Shevrin. Depois
apresentaram diversos trabalhos feitos sobre fitas de auto-ajuda com
mensagens subliminares e discos tocados ao contrário e mostraram como está
provado que estas mensagens não tem nenhum efeito sob quem as
ouve.
No veredicto o juiz concluiu que a mensagem "Do It" realmente
estava presente na música, mas que nenhuma evidência havia sido
apresentada de que era outra coisa além de uma mistura não intencional de
sons, nem de que estes sons pudessem ser subliminarmente efetivos. Quanto
a isto o juiz proferiu: "As pesquisas científicas
apresentadas não estabelecem que estímulos subliminares, mesmo que
percebidos, podem precipitar condutas desta magnitude (...) a evidência
mais forte apresentada neste tribunal não mostrou outros efeitos
comportamentais além de ansiedade, estresse ou tensão". O grupo foi
absolvido e a indenização negada.
As observações de Timothy Moore
sobre todo o caso foram transcritos em um ótimo artigo da revista "Skeptical Inquirer". Para ouvir o "Do
It" que deu origem a toda a história visite o link do pesquisador Don Read (aproveite, é bem difícil
de encontrar, mas se você ainda acredita no poder das mensagens
subliminares, certifique-se de estar num bom dia...).

Humor: o homem está sentado em frente ao botão de
lançamento de um artefato nuclear; a legenda diz "Em retrospecto, a Nike
nunca deveria ter permitido suas propagandas no Departamento de Defesa
Americano".
Seis coisas básicas para guardar sobre as mensagens
subliminares
Existem alguns temas nas pseudociências que são como aqueles
vilões de filmes de terror dos anos 80. Não interessa de quantas maneiras
diferentes os mocinhos os matam, no final eles sempre reaparecem. Assim
são as mensagens subliminares. Agora mesmo, enquanto escrevemos este
artigo uma marca de cerveja está sendo denunciada à Justiça do Consumidor
pela ONG Mensagem Subliminar por incluir num comercial palavrões que só
podem ser ouvidos quando a gravação é tocada ao contrário. E lá vem de
novo a história do cinema de Vicary para nos lembrar de como são poderosas
as mensagens escondidas.
Enquanto isso pessoas ganham dinheiro e
projeção com livros, palestras e sites sobre o que pensam ser mensagens
subliminares. Fitas de auto-ajuda movimentam um comércio milionário, a
despeito das fartas evidências científicas de que não funcionam. Grupos
religiosos alimentam a paranóia, denunciando o uso das mensagens
subliminares na divulgação da palavra de satã. Amparando tudo isso não há
nenhum estudo realmente científico, apenas livros populares escritos pelos
leitores de outros livros populares. É... não há dúvida de que estamos no
terreno pantanoso de uma legítima pseudociência.
Por isso da
próxima vez que alguém tentar lhe vender a paranóia das mensagens
subliminares, responda de volta que:
(1) A história do cinema, da
coca-cola e da pipoca é uma farsa, admitida pelo próprio autor em uma
entrevista publicada em 1962. E ninguém, nem mesmo o próprio James Vicary,
conseguiu reproduzir a experiência até hoje. (Aqui cabe um pensamento:
tudo bem que lendas urbanas são extremamente resistentes e costumam
sobreviver a todas as evidências contrárias, mas se a própria confissão do
autor que fabricou o mito não é capaz de enterrá-lo, o que
será?)
(2) Repita como um mantra: subliminar não
é subentendido. Subliminar é o que não é visto conscientemente; se
viu, deixou de ser subliminar. Uma imagem ou uma idéia sugerida, nas
entrelinhas, sutil ou periférica não é subliminar.
(3) Estímulos
sensoriais abaixo do limiar de percepção objetivo, ou seja, fora do
alcance dos sentidos, como um som fraco demais para ser captado pelo
ouvido ou ininteligível como uma mensagem reversa, ou uma imagem rápida
demais que não possa ser captada pelo olho, não causam absolutamente
nenhum efeito em quem é sujeito a eles.
(4) Percepção subliminar é
um tema amplamente estudado há mais de 100 anos pela psicologia. Embora
muitos pontos permaneçam controversos, não há nenhuma evidência científica
de que alguém possa ser persuadido por uma mensagem subliminar a iniciar
uma ação complexa como consumir um determinado produto ou se
suicidar.
(5) Fitas de auto-ajuda com mensagens subliminares não
funcionam, a não ser que você considere o efeito placebo. As mensagens
subliminares em algumas delas não podem ser detectadas nem por aparelhos,
que dirá pelos seus ouvidos.
(6) Procurar mensagens subliminares
escondidas em propagandas, como mulheres nuas em copos de vodca e orgias
em pratos de moluscos é a mesma coisa que procurar formas familiares em
nuvens ou manchas (como bem sabem aqueles que já fizeram exames
psicotécnicos que incluíam o teste
de Rorschach). Com alguma paciência algumas pessoas são capazes de
enxergar animais ou objetos caseiros enquanto outras provavelmente
conseguem distinguir diabos chifrudos ou órgãos sexuais. Cada um enxerga o
que está acostumado ou predisposto a ver (e se você pensa que esta é
apenas uma metáfora, veja o que algumas pessoas conseguem ver nas nuvens
da tela de abertura do Windows 95...